Despoluição desigual da Baía ainda obriga moradores da Zona Norte a atravessar a cidade para aproveitar um dia de praia
São 11 horas da manhã de um domingo de novembro. O sol escaldante do Rio de Janeiro leva a estudante de Psicologia Pamela Vitória, de 24 anos, para um mergulho na Praia do Flamengo, que fica a poucos minutos de caminhada do apartamento onde vive desde os seis anos de idade. Ela acompanhou de perto a transição do mar poluído do Flamengo virar um dos mais limpos do Rio. “Tem dias aqui que a água tá limpinha, limpinha… Nunca que eu imaginaria ver isso”, comenta a estudante, que passou a frequentar a praia mais vezes depois que os mais de 20 milhões de litros de esgoto deixaram de desembocar naquele trecho da Baía. “Antes eu só corria no Aterro e passava pela orla, mas não entrava na água. Era muito suja, o cheiro era horrível. Hoje, com a qualidade que tá, se eu pudesse, ficava o tempo todo por aqui.”
Para ela, a mudança ultrapassa o campo ambiental: “Melhorou 100% a minha qualidade de vida. Agora consigo, entre um turno de trabalho e outro, dar um pulo no mar, me refrescar. Isso me ajuda a colocar as ideias no lugar. Eu amo praia, e ter uma assim, boa e perto de casa, faz toda diferença pra cabeça e pro corpo também.”
Quem dera essa também fosse uma realidade para Viviane D’Souza, sambista e professora de inglês, com 48 anos de idade, mora na Ilha do Governador desde os 7. Para chegar à mesma praia frequentada por Pamela, ela precisa atravessar ponte, viadutos e percorrer mais de 15 quilômetros, em uma viagem que pode levar mais de duas horas para quem depende do transporte público. É o trajeto até a praia com balneabilidade favorável ao banho mais próxima de sua casa. As que cercam o seu bairro seguem impróprias para banho desde 1984, carregando consigo o risco de doenças e o peso do abandono.
Viviane, no entanto, cresceu em um tempo diferente, quando as praias da Ilha ainda eram banháveis. Até os 17 anos, ela frequentava a Praia de São Bento, no início do bairro, onde nadava e pescava com o pai. “Eu tomava banho nessas praias, pescava junto com meu pai. Cheguei a ver cavalos-marinhos aqui”, lembra. Hoje, mesmo frequentando os mesmos trechos, o contato é outro: “Eu vou à praia, mas não entro na água. Estão muito sujas… Abandonadas é a palavra certa.”
A praia que marcou a infância da sambista é, hoje, um dos maiores pontos de acumulação de lixo da Ilha. A faixa de areia denuncia o abandono. “Quando eu era mais jovem, passava os fins de semana nessa praia para tomar banho e brincar com os amigos. Hoje isso é impensável. A praia está tomada por lixo, urubus e um fedor sem igual. Um cenário de completo abandono! E o que mais me assusta é não ver um único funcionário da Comlurb por aqui, alguém que pelo menos amenizasse a sujeira que se acumula na areia”, relatou, indignado, um morador que preferiu não ser identificado.
Em nota, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (Comlurb) afirmou que a Praia de São Bento recebe limpeza diária, com uma equipe de quatro garis e o apoio de um trator de praia e de uma pá mecânica. Mas, segundo a empresa, existe um desafio em manter o ambiente limpo, já que boa parte do lixo chega pela correnteza dos cursos d’água, desce das encostas sem contenção ou são descartados na faixa de areia por frequentadores.
Além da Praia de São Bento, a Ilha do Governador é atualmente rodeada por outras 11 praias – todas em situação semelhante ou menos degradadas.

Foto 1: Agência Brasil
Foto 2: José Chacon
As praias da Ilha do Governador sofrem com o acúmulo de lixo tanto na Baía quanto na faixa de areia
Entre os tipos de lixo mais comum estão: plástico, móveis, madeira, pedaço de embarcações velhas e até animais mortos.
É possível ver o esgotamento irregular nas praias da região, com o despejo de esgoto percorrendo a areia e chegando a água.
Para o professor de engenharia costeira e oceânica da Coppe/UFRJ, Paulo Cesar Rosman, esse cenário é resultado de décadas de crescimento urbano desordenado e falta de políticas eficientes em termos de saneamento, em que a população de zonas periféricas teve que improvisar tanto a própria moradia quanto o destino dos seus resíduos.
De acordo com o Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP), com base nos dados do Censo do IBGE, a Ilha do Governador abriga 32 favelas das mais de 1700 que existem no Rio de Janeiro – onde a maioria dos moradores são negros e pardos. Embora este grupo represente 55% da população brasileira, 68,6% vivem sem qualquer solução adequada de esgotamento sanitário. Na Ilha, mais de 30% dos seus 212,5 mil habitantes ocupam esses espaços. Segundo Rosman, é justamente para essa população que o poder público deixa de planejar a cidade. O resultado é: redes clandestinas de esgoto, valões a céu aberto e lixo sem coleta adequada. Tudo isso deságua diretamente na Baía de Guanabara.
“Não existe saneamento nas comunidades do Rio. É uma grande ilusão pensar isso. Esses espaços carregam a marca da desordem urbana e isso impacta diretamente o ambiente no seu entorno. A prefeitura, que deveria fazer o ordenamento correto da cidade, ignora totalmente a existência das comunidades”, explica o professor, que acompanha a dinâmica da Baía há mais de 20 anos.
Além das favelas com estruturas precárias que a Ilha abriga, Rosman afirma que a posição geográfica do território dentro da Baía a torna ainda mais vulnerável. As correntes que circulam pela Guanabara acabam por arrastar para a região as águas contaminadas que chegam de municípios como Duque de Caxias e Magé, igualmente marcados por um crescimento urbano desordenado e por sistemas de saneamento frágeis. Soma-se a isso o contato direto com áreas industriais e o risco constante de vazamentos de óleo das empresas que operam no entorno.
As praias que recebem esgoto e acumulam lixo não são apenas territórios de abandono: também se tornaram viveiros de doenças. Das infecções de pele às complicações gastrointestinais mais graves, as águas da Ilha do Governador impõem um risco real à saúde. Leonardo Aquino, 39 anos, e seu irmão José Lázaro, de 55, nascidos e criados na Ilha, fazem parte do grupo que ignorou o perigo e pagou o preço. “Durante a infância, com 7, 8 anos, eu entrei na Praia da Guanabara e peguei micose na virilha. Meu irmão pegou nas costas. Para curar foi ruimzão e ele é manchado por causa disso até hoje”, relatou Aquino, enquanto seguia viagem como motorista por aplicativo rumo à Praia da Engenhoca.
Depois desse episódio, nenhum dos dois voltou a entrar no mar da Ilha. Leonardo diz que, se naquela época a água já trouxe problemas, hoje o cenário é ainda mais impensável. “Hoje tá bem pior a poluição. Você vê de tudo, sofá, privada, televisão, todo tipo de entulho e até difuto”.
A percepção dele não é exagero. Um estudo de 2023 realizado por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificou que as bactérias mais comuns na Baía de Guanabara são fecais – como E. coli, coliformes e enterococos –, que indicam a presença direta de fezes humanas e agentes de doenças como diarreia, vômitos, conjuntivite e infecções de pele. Para além disso, as águas acumulam metais pesados, como chumbo, cádmio e mercúrio, substâncias que não provocam efeitos imediatos, mas podem afetar o sistema nervoso e órgãos como os rins. Pesquisas com microalgas da UFF também detectaram poluentes químicos emergentes, entre eles o bisfenol A (BPA) e hormonas sintéticas, capazes de desregular o sistema endócrino e desencadear reações alérgicas.
Essa realidade confirma a lógica de que a falta de saneamento básico é questão de saúde pública. Em 2024, o Brasil registrou 344 mil internações por algum tipo de doença relacionada a esse problema, segundo levantamento do Instituto Trata Brasil. Uma sobrecarga no SUS que custou R$ 174 milhões apenas para tratar doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado.
Conforme o Trata Brasil, se o saneamento fosse universalizado, poderiam ser evitadas 86.760 internações por ano – o que representaria uma economia de quase R$ 50 milhões anuais aos cofres públicos. Além disso, é apontado que a universalização total poderia poupar R$ 1,255 bilhão em despesas hospitalares a longo prazo.
Dados: Instituto Trata Brasil (2024)
As doenças causadas por contato com bactérias fecais são hoje a segunda principal causa de internamentos relacionados à falta de saneamento porque boa parte da população brasileira (24,26%) vive sem destino correto de fezes e urina. Para quase 50 milhões de brasileiros, o descarte dos dejetos é feito em fossas rudimentares, buracos improvisados, valas abertas ou simplesmente jogá-los nos rios e no mar.
E despejar excrementos no mar não é uma prática nova. Na Baía de Guanabara, ganhou escala ao longo do século XX, impulsionada pela expansão urbana e industrial em suas margens. Registros de vida no Rio de Janeiro do século XIX, citados no livro Lixo – A Limpeza Urbana Através dos Tempos do professor Emílio Eingenheer, mostram que o acesso ao saneamento básico sempre foi um privilégio dos mais ricos e expõem um passado brutal: homens escravizados, conhecidos como tigres, eram obrigados a transportar barris de dejetos até a praia e, muitas vezes, acabavam cobertos pela carga quando os frágeis tonéis de madeira se desfaziam pelo caminho.
Para reverter o despejo de excrementos nas praias da Ilha do Governador, a Águas do Rio alega já ter investido R$ 11,4 milhões, voltados a eliminar ligações clandestinas e recuperar a rede de drenagem. De 2024 para cá, a concessionária afirma que 249 pontos irregulares de despejo foram desativados e mais de 2 mil desobstruções foram feitas em tubulações comprometidas pela falta de manutenção.
Além disso, a empresa informa que está implementando coletores e iniciou a reforma da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). Tudo isso para convencer sobre a promessa de revitalizar três das 12 praias da Ilha, até junho de 2026: Bica, Engenhoca e Guanabara.
Viviane e Leonardo conhecem bem essa história. E já não sabem se acreditam na nova promessa. “A gente escuta essa história há muito tempo… Eu, pelo menos, desde a minha adolescência, e já estou com 48 anos. É difícil acreditar, mas confesso que fico otimista com o que fizeram no Flamengo”, admite Viviane.
“Entre acontecer na Zona Sul e na Zona Norte tem um abismo disparado… Não é muito garantido não!”, aponta Leonardo, que lamenta o tratamento diferente entre as zonas da cidade. “Você vai na Zona Sul e a história é outra: tem policiamento em cada esquina, as ruas são limpinhas. Zona Norte, Zona Oeste não é da mesma forma. A gente não é visto pelo poder público da mesma maneira.”